Religiões Afro-brasileiras/Americanas - Diversidade como Inclusão Total
Nas Religiões Afro-brasileiras/Americanas valorizam-se a diversidade, a multiculturalidade, o respeito, o reconhecimento e a valorização da diferença e do outro (alteridade).
Muitos supõem ser esta valorização uma forma de crítica à modernidade, pois a mesma não conseguiu emancipar o homem e sua sociedade por intermédio da razão.
Os críticos, os intelectuais, são tidos como pós-modernistas; sentenciam a falência da razão, pois a mesma não favoreceu a liberação humana, ao contrário racionalizou o controle dos indivíduos, deflagrando formas de opressão que se estabelecem no cotidiano.
No que concernem às religiões afro-brasileiras/americanas, respeitam todas as formas de pensamento humano, todavia não concordam com a linha mestra da pós-modernidade caracterizada pelo anti-humanismo (abandono do sujeito) e ceticismo que se aproxima do irracional. Não obstante, não se nega que a ação humana está sob os guantes da estrutura socioeconômica, como de há muito tem sido denunciada pelas religiões afro-brasileiras/americanas.
Nas religiões afro-brasileiras/americanas não se mantêm a esperança passiva, mas a atividade de uma militância constante na certeza de possibilidade real de mudanças substanciais, manifestas em novos projetos de emancipação da humanidade, onde prevaleça o diálogo como forma de convivência pacífica e justiça social, política e econômica.
Numa ação crescente e madura, os adeptos das religiões afro-brasileiras/americanas têm promovido a divulgação de que sua vertente principal é a diversidade, é repensar e reatualizar suas práticas de relacionamentos endógeno e exógeno.
Sim, é histórico que os adeptos das religiões afro-brasileiras/americanas sempre estiveram (mantiveram-nos) apartados, separados, algo que os fragilizava e, ainda na atualidade enfraquecem sua mobilidade social, e principalmente, sua real importância no cenário da cultura e sociedade brasileiras. Nos aspectos religiosos são, ideologicamente, expostos como mero folclore.
Recentemente uma das emissoras da mídia televisiva aberta, reportou-se a Lavagem das Escadas (enredo religioso) da Igreja do Senhor do Bonfim, associando-a de forma pejorativa a uma escola de samba. O pior estava por vir, pois na reportagem anterior haviam mostrado alguns presidentes de escolas de samba sendo detidos em delegacia policial por crime de contravenção. Conclusão: associaram às religiões afro-brasileiras/americanas com o crime, como algo alheio ao bom senso e aos “bons costumes”. Mais uma vez, o preconceito...
Este descaso para os adeptos das religiões afro-brasileiras/americanas tem sua gênese no Brasil colônia. Naquela época não se permitia o encontro de indivíduos de etnias diferentes, pois o que se desejava era conveniente na manutenção do status quo. Aumentavam-se as rivalidades entre eles impedindo que se unissem e combatessem o escravismo. Era só isso!...
Na atualidade não é diferente. Vez por outra se estimula rivalidades entre os adeptos das religiões afro-brasileiras/americanas, pretendendo manter as coisas como sempre foram.
Incita-se discussões estéreis, improducentes e improcedentes que impedem a união, o sentido de pertença e identidade das religiões afro-brasileiras/americanas, adiando a tarefa que a elas competem no cenário de incentivar e proporcionar a mudança social, na defesa dos discriminados e excluídos de todos os matizes da sociedade brasileira.
Mais uma vez a pergunta que não quer se calar: a quem pode interessar tal estado de coisas? A quem? Com toda a certeza não são aqueles que desejam a união (não codificação) a pacificação e uma cultura de paz, com respeito irrestrito a todas as religiões afro-brasileiras/americanas.
Para esses promotores de cizânias deve-se afirmar que não há esse ou aquele “Terreiro”, melhor que os demais. Apenas são diferentes, somente isso. E isso é muito bom. Não há necessidade de concorrência, mas de convivência pacífica que fortalece a amizade, a fraternidade, a identidade (vendo- se no outro) e a pertença.
Reitera-se que não se pode olvidar que variações regionais (espaço) e de várias épocas (tempo) proporcionariam e proporcionam a diversidade, ou seja, diferenças. Há de frisar-se que diferenças são apenas variações de uma mesma coisa, portanto naturais.
Todas as religiões afro-brasileiras/americanas são formas de manifestação da diversidade, e isto significa ter a liberdade de fazer o seu culto segundo seus fundamentos e não desprezar o culto e os fundamentos do outro. O respeito, o reconhecimento de que o outro existe e tem sua real importância no processo da religiosidade.
Aceitar, respeitar e vivenciar a diversidade não significa o individuo mudar seus conceitos ou fundamentos que aprendeu e vivenciou em sua Tradição na Iniciação, pois deve perceber que também ele mesmo, seu ritual faz parte da diversidade, tal qual todos os demais. Portanto viver a diversidade é aceitar e reconhecer o real valor do outro no contexto das religiões afro-brasileiras/americanas.
Todos podem e devem continuar fazendo seus cultos e seguir seus fundamentos o que deve ser natural, todavia não se pode achar que se é melhor que este ou aquele e muito menos alardear que “revelou”, ou resgatou isso ou aquilo, como forma de desejar a hegemonia na religião. Isso é contrário à diversidade, ao reconhecimento do outro e a ética que norteia essa religião.
Tomando como exemplo de religiões afro-brasileiras/americanas, a Umbanda, tem-se na verdade várias “Umbandas”, pois há várias Escolas, cada uma com seus rituais próprios, segundo sua (s) vertente (s) formadora (s) preponderante (s).
A vertente denominada Umbanda Cristã se alicerça em fundamentos próximos ou retirados do kardecismo e Catolicismo. Claro está que há influências de matriz ameríndia ou africana.A Escola Umbandista (forma de pensar e cultuar os Orixás e Ancestrais) denominada Omolocô tem como vertente principal a matriz africana (mistura angola jejê nagô) tendo laivos do Catolicismo e menor influência Kardecista.
O mesmo acontece com a Umbanda Iniciática ou Esotérica que tem aspectos balanceados das três matrizes formadoras, mas com predominância ritualística da matriz ameríndia, sem descartar a matriz africana e a indo européia.
O mais maravilhoso é que todas têm o mesmo grau de importância, sendo apenas diferentes, atraindo para suas práticas as pessoas mais afinizadas com essa ou aquela matriz. Portanto, não há nexo descaracterizar a Umbanda tentando uniformizá-la ou desejar que uma vertente seja superior ou hegemônica. Isso é impossível na Umbanda, felizmente.
Mais uma vez conclui-se que diversidade é diferença e não desigualdade (hegemonia). Permite que cada um tenha a liberdade de cultuar suas convicções doutrinárias e mágico-liturgicas (toques, rituais), respeitando e reconhecendo a importância de outros grupos.
Os adeptos das religiões afro-brasileiras/americanas estão no inicio do processo do entendimento da diversidade, que deve ser um desafio a ser vencido, um exercício constante, principalmente de não se julgar melhor do que ninguém, ou mesmo querer impor a todos os demais uma forma de ritual.
É necessário, repisa-se, reconhecimento e valorização do ritual dos outros, da forma que cada um deseja fazer e vivenciar as religiões afro-brasileiras/americanas.
Não se pode olvidar que as mesmas são uma idéia que se manifestam em várias linguagens (cultos) e todos com a mesma importância. Isso nos incita a perceber, aceitar e reconhecer como legítimas as múltiplas linguagens das religiões afro-brasileiras/americanas.
No término desse texto em que reiterou-se a necessidade de se vivenciar a diversidade (falou-se demais sobre ela, é hora de vivenciá-la) e para não abortá-la, recordemos a história recente que afirma não ser a sociedade tão democrática como deveria. Portanto, defender a diversidade é assumir uma atitude humanista e política em favor dos que sempre foram marginalizados do poder de se expressar e de se mostrar.
É momento de diversidade sem adversidades. Vamos vivenciá-la? Axé!
Aranauam, Motumbá, Mucuiú, Kolofé, Axé, Salve, SaraváRivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
Blog - Espiritualidade e Ciência
http://sacerdotemedico.blogspot.com
É momento de diversidade sem adversidades. Vamos vivenciá-la? Axé!
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Rivas Neto (Arhapiagha) – Sacerdote Médico
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